O mar

Havia parado em frente ao quadro pra poder observá-lo.  Naquele dia sem muito saber o que fazer resolvera andar até o museu, é perto, não muitas quadras daqui, havia pensado o rapaz. O corredor estava meio vazio, palavras faziam pequenos voos morrendo antes de que pudesse prender seus significados. Como se palavras pudessem ser presas:  galgam cada vez mais alto e rebentam de novo e de novo essas correntes que insistimos em querer passar por elas.

Seus últimos passos soavam de forma contundente, as cores e formas ao seu lado, de pessoas, quadros, todas representações do próprio ser daquele jovem, projetavam-se ao seu redor, formando uma espiral de figuras reais ou apenas ilusões do que viria a ser, não se compreendia bem. Parou porque resolveu observar melhor tudo aquilo que apenas lhe passava rápido, ou para poder descansar, não transformamos sempre em palavras as ações de nossos corpos pois as vezes o discurso formado pelo silêncio nos diz muito mais do que todas as vozes que podemos ouvir.

Aquele quadro ali um pouco a sua direita foi onde lhe foram parar os olhos, esses projetores que fingimos acreditar ser receptáculos das cores e formas que dançam pelo mundo. Mais alguns passos e chegamos ao começo: lá estava aquela moldura, parecendo sussurrar-lhe algo. Não era um quadro de grandes dimensões, nem nunca fora treinado em Artes, seu aprendizado limitava-se a um ou outro quadro de Da Vinci, uma pintura no teto e não sabia diferenciar as fases de Picasso nem nunca ouvira falar dos muralistas. O que o prendeu não fora o contraste, o jogo de luzes, o ponto de fuga ou algo desse tipo. O que o parou ali, o que o fez olhar foi justamente essa característica de nossos olhos que falamos e nunca compreendemos: eles são como janelas. Não por apenas receber a luz do sol ao amanhecer e nos fazer acordar, e sim por refletir, mandar de volta a luz, talvez antes que a mesma venha a lhes tocar.

Havia ele parado, em cima de um monte de pedras. Havia um mar em sua frente, não um normal, azul e brilhante, mas um branco e assustador, engolindo todos seus anseios como se perguntasse, e agora, não vedes nada daqui em diante, como tu vai seguir? Não era isso que o importava, o oceano a sua frente era em si a beleza daquilo tudo. Tão belo e branco, tinha valido a pena ir até ali, pensou o viajante.  Não concebe com plena certeza o que está lá, pode de um momento pra outro sumir, num desenlace da efemeridade, mas por um simples momento todo aquele lapso, aquela fração de tempo, como costumamos chamar porque acreditamos que o tempo pode como nós mesmos ser fracionado, era o que existia e o transformava. Ajeitou sua bengala, e se virou. Estava na hora do viajante refazer o caminho pelo qual tinha chegado ao mar de névoa, ao centro de si.

À ela.

Relato

Já havia um tempo que estava parado em frente à estátua da antiga praça. Perguntava-se de quem seria o velho busto, maltratado e já sujo, que enfeitava tão solene espaço, antro de gente perdida, na vida e no tempo. Curioso, pensou, colocam esses bustos para eternizar alguém na memória, mas apenas um velho como eu perde tempo se perguntando quem seria esse sujeito, que tão sério observa os desajustados que por aqui caminham.

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Um suspiro. Tinha saído para andar depois de um pesadelo, algo com sombras e sangue, gritos e dor. Ele já não mais lembrava do que havia sonhado, que importância teria? Virou-se, via gente inebriada e entorpecida, talvez de tanta realidade. É assim mesmo, esquecidos pelo resto, logo mais se esquecem do mundo. O tempo passava de forma devagar, com preguiça de andar. O mundo que corre e desespera já tinha ficado para trás, adormecido com a brisa da noite. Ali restava o silêncio, naquela praça não havia voz que chegasse. Tanta gente, disse, condenada à mudez. Deu mais dois ou três passos, olhou em volta. Não parecia estranho naquele lugar, e percebeu o quanto era estranho pensar sobre isso. Talvez fosse o seu erro. Enfim, melhor deixar tudo para lá, que mais há além disso? Só aquela cor na camisa é que incomodava. Sentou-se, pensou em um labirinto. Os labirintos eram importantes, lembrou. Mas não sabia quem dizia isso. Um velho, um cego, um mendigo, um personagem de livro. Mas, afinal, não são todos o mesmo? Já estava começando a ficar com sono. Ou cansado.

Aproximou-se. Não via muito bem quem era, sorriu-lhe. Pensou no sorriso, o quão deslocado de tudo aquilo era esse gesto. O barulho foi percebido antes da visão do objeto, contrariando a expectativa da física. Lembrou-se do sonho, das sombras, do sangue, dos gritos. Pensou nisso tudo e no sorriso. Talvez tenha trocado algumas palavras antes. Contado sobre a vida, sobre razões e devaneios. Talvez tenha lhe dito algo sobre labirintos. Não posso dizer; o resto registro como me contaram.

Foto: Reloj, por Gustavo Gabriel.

Agradecimentos a Bianca e João Gilberto.

Pequena crônica ilusória

Vejam o velho. Parado, sentado, olha o céu. Nada era mais do jeito que lembrava. Nada, era o que lembrava. O velho levanta-se, percebam, e caminha.

Ao andar pela, rua, magnífica rua de prédios de marfim ilusório oferecendo ilusões aos que passam, o velho tenta se lembrar. Entender essas pessoas, que passam transitam esbarram andam desandam  não sentem, impossível, é o que pensa o velho. Há quanto tempo estão a ir, essas pessoas, insetos fragmentados, pedaços de sonho desse pobre velho.

Olhem o velho se sentar e não sentir o mundo. Olhem bem, e percebam o quão velho ele é, mais antigo que esses prédios, mais antigo que as ideias, mais antigo que o primeiro suspiro, moldado pelo velho. Mas o velho não lembra e as ideias e ilusões não lembram do velho, apenas andam desandam esbarram.Vejam o velho. Morto. Morto por não o saberem que está lá; por não o verem, não o pensarem. Olhem e percebam aquele que fez o primeiro rascunho e sintam que esse velho, morto pela pior morte, não pode morrer. Esqueçam o velho.

Era o Verbo

Palavras escritas rasgadas jogadas aqui. Preencho esse blog com ideias, subrealidades criadas a partir de mim [ou de vocês, quem sabe, nesse jogo de palavras talvez vocês sejam os arquitetos que conduzem os meus sonhos, como num filme recente].

Sonhos. Como disse um velho mestre, dentro de uma biblioteca imaginária e real, fantástica e palpável: nós sonhamos o mundo. Então aqui começo a sonhar [parei algum dia?].

As letras tem força. Assim, formando palavras, moldando esse mundo tão desestruturado a nossa volta. As minhas aqui, como o nome [sim, nome, palavra importante] do blog denuncia, serão efêmeras e etéreas. Talvez como meus sonhos, e quem sabe, meu mundo. Ou seria o oposto? Quem sabe um eterno jogo de espelhos.

O éter. A matéria que preenche o nada, que como disse um certo detetive parafraseando um tal francês: está sempre em outro lugar. Um “nada” efêmero. Nada efêmero? Creio que não. Porém, assim são as minhas letras, que como um castelo de areia, virão um dia a desaparecer.

Assim, é. Eis aqui meu espaço, e que as efemeridades aqui sonhadas por mim [nós] façam dele um jardim agradável, como o mundo de um certo ser, que ao contrário daqui, é perpétuo.