Pequena crônica ilusória

Vejam o velho. Parado, sentado, olha o céu. Nada era mais do jeito que lembrava. Nada, era o que lembrava. O velho levanta-se, percebam, e caminha.

Ao andar pela, rua, magnífica rua de prédios de marfim ilusório oferecendo ilusões aos que passam, o velho tenta se lembrar. Entender essas pessoas, que passam transitam esbarram andam desandam  não sentem, impossível, é o que pensa o velho. Há quanto tempo estão a ir, essas pessoas, insetos fragmentados, pedaços de sonho desse pobre velho.

Olhem o velho se sentar e não sentir o mundo. Olhem bem, e percebam o quão velho ele é, mais antigo que esses prédios, mais antigo que as ideias, mais antigo que o primeiro suspiro, moldado pelo velho. Mas o velho não lembra e as ideias e ilusões não lembram do velho, apenas andam desandam esbarram.Vejam o velho. Morto. Morto por não o saberem que está lá; por não o verem, não o pensarem. Olhem e percebam aquele que fez o primeiro rascunho e sintam que esse velho, morto pela pior morte, não pode morrer. Esqueçam o velho.

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